A cidade está a ser tomada por uma cultura de desrespeito tão profunda que já nem choca.
E essa é a parte mais perigosa.
Porque quando o absurdo deixa de nos indignar já começámos a perder noção ao lógico.
As regras de trânsito parece que estão de malas aviadas para um outro lugar longíquo onde a desobediência ainda vira de vergonha.
Maputo virou uma selva onde cada um luta por si, sem regras, sem limites, sem pudor.
Motoqueiros transformaram-se nos novos donos da estrada. Sem capacete. De chinelos.
Com três, quatro pessoas na mesma mota como se a vida fosse descartável.
Circulam em contramão com a confiança de quem está certo. Invadem passeios como se fossem extensão natural da estrada. Ignoram semáforos como se os mesmos fossem sugestões decorativas.
E fazem-no onde? Em todo o lado. Inclusive no passeio da residência do Primeiro-Ministro
mesmo em frente à Presidência da República.
Sim. Ali. O mesmo espaço onde, no tempo de Samora Machel nem a pé se ousava passar.
Hoje, passa tudo. Menos o respeito.
Mas atenção: isto não é só sobre motas. Há uma nova aristocracia do caos: o RACTIS.
Essa criação da Toyota, idealizada por Kiichiro Toyoda para democratizar o acesso ao automóvel acabou por democratizar outra coisa: a irresponsabilidade.
O Ractis não conduz. Ele desfila.
O Ractis impõe-se, na sua indisciplinada autoridade.
Não para no semáforo.
Não respeita prioridades.
Não reconhece limites.
E há um fenómeno quase sobrenatural que o acompanhe. Gente pacata, educada, civilizada, quando entra num Ractis e transforma-se.
Perde-se o filtro. Cegam-se os bons modos.
Perde-se o travão. Altera-se o juízo.
Uma universal curiosidade?
Quase todo Ractis TEM A TRASEIRA BATIDA.
Não é azar, é padrão.
Dizem que é porque atrás dele vem sempre um Mazda Demio, colado, nervoso, impaciente, a bater-lhe a traseira como se a cidade estivesse em permanente estado de urgência.
E no meio deste novo ecossistema há uma ironia cruel. O chapeiro que há bem pouco tempo era o vilão, virou santo.
Sim. Aquele que durante anos foi o símbolo máximo da indisciplina rodoviária hoje parece um exemplo de contenção.
Comparado com os novos donos do atropelo urbano, o chapeiro quase parece um aprendiz.
Mas o problema não é deles.
O problema somos nós.
Todos nós.
Porque no trânsito revelamo-nos.
E o que se vê é preocupante.
Somos incapazes de esperar.
Incapazes de respeitar filas.
Incapazes de ceder passagem.
Já não conduzimos.
Disputamos cada metro como se fosse o último pedaço de terra fértil.
Furamos filas. Galga-se passeios.
Invadem-se rotundas como quem conquista território.
A banalização da condução pela direita, feita com a mais desconcertante tranquilidade, é talvez um dos retratos mais inquietantes do nosso declínio cívico.
Circula-se na faixa errada como quem passeia num jardim, obrigando quem, de facto, passou por uma escola de condução a exercer uma condução duplamente, às vezes triplamente defensiva, antecipando o erro alheio a cada segundo.
E, no limite do absurdo, são esses mesmos condutores responsáveis que acabam forçados a ultrapassagens pela esquerda, manobras arriscadas que nunca deveriam ser necessárias, mas que se tornam inevitáveis para sobreviver ao caos. Fica a sensação, amarga e irónica, de que muitos não aprenderam a conduzir.
Simplesmente adquiriram o direito de estar ao volante como quem compra um bem qualquer no nhonguista, sem instrução, sem critério e, sobretudo, sem consciência do perigo que representam para todos.
E enquanto isso, a cidade vai dando outros sinais. O número de mendigos cresce a cada dia e intensifica-se nas zonas turísticas. Aquelas mesmas zonas que usamos para vender ao mundo uma imagem de país apetecível .
Hoje, o turista já não precisa de guia.
Basta parar num semáforo e a realidade vem ao encontro dele. É quase um “pacote completo”:
praia, sol e um retrato cru de desigualdade à janela do carro. O turismo, uma das nossas maiores fontes de receita, a ser sabotado por nós próprios.
Mas não é só. A prostituição já não se esconde. Instalou-se. Fixou-se.
E não poupa espaço.
Em frente a hotéis, embaixadas.
E o mais perturbador é
a prostituição infantil na Avenida do Zimbabwe,
mesmo em frente à sede da UNICEF.
Ali mesmo. Na calada da noite.
Sim. Nem isso nos faz parar para pensar.
Nem isso nos faz reagir.
Então, sejamos honestos.
Isto não é um problema de trânsito.
É um problema da sociedade.
É um problema de valores.
De educação. De limites.
Viver numa cidade exige urbanidade. Exige elevação. Exige respeito pelo outro.
Não é a cidade que deve descer ao nível de quem não a respeita. É quem lá está que deve se elevar para merecer viver nela.
Porque se continuarmos assim,
se continuarmos a normalizar isto um dia vamos acordar e já será tarde. O mundo está cheio de exemplos desses.
E a factura será pesadíssima.
Será económica, social e moral.
E nessa altura, já não haverá nada a fazer a não ser implodir tudo para nascer um novo povo.
Chega de culturas amputadas por comportamentos noviçivos e ganha vergonha na cara. E vamos resgatar a cidade.
